Parede repleta de capas de discos icônicos, com artistas de diversos estilos exibidos lado a lado em prateleiras de madeira.
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Seloki Records: fazer som e fazer sentido

Yann Dardenne fala sobre liberdade criativa, independência e o desafio de manter vivo um selo musical no ritmo frenético do streaming

   

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Encontrei Yann em frente ao PORTA, uma casa cultural independente localizada em Pinheiros. Ele havia ido para a primeira audição do álbum Areia e Voz, da cantora Tori. Pegou dois banquinhos e nos acomodamos no quintal, enquanto uma bateria soava ao fundo e os passarinhos cantavam no fim da tarde. Músico, engenheiro de som, produtor musical e um dos fundadores do Seloki Records, Yann Dardenne fala sobre os desafios e transformações da produção musical independente na era dos streamings e sobre a busca dos selos por estabilidade financeira.

Yann Dardenne, produtor musical e fundador da Seloki (Imagem: Julia Custódio)

Antes de criar o Seloki Records, ele conta que começou, em 2015, a banda Goldenloki, formada por ele, seu irmão e um primo, que tocavam por diversão em um home studio na casa dos pais. Com o tempo, começaram a gravar músicas autorais, o que permitiu um olhar mais crítico e profissional sobre as próprias criações. A banda os levou a se aproximarem de outras bandas independentes e a realizar pequenos shows, abrindo portas no cenário musical alternativo de São Paulo.

Em 2018, mudaram-se para a Lapa, onde fundaram o Estúdio Fiaca, local onde também produziram diversos shows e gravações de outras bandas. Durante a pandemia, no Fiaca, Yann e seu irmão Otto aproveitaram o tempo para repensar suas atividades e perceberam que já atuavam como selo musical, ao apoiar músicos desde o processo criativo e de gravação até o lançamento e divulgação no mercado. Nasceu, oficialmente, o Seloki Records.

Desde então, o selo atua em uma “onda imparável de movimentação na música independente antinostalgia alto grau de entusiasmo sacação workadelic bandeira DIY”.

Por que vocês definem o Seloki como uma “onda imparável”? 

Porque essa onda imparável somos eu e meu irmão. A gente faz isso porque a gente é apaixonado, porque isso alimenta a nossa alma. Poder colaborar com a cena artística, musical independente do nosso país, e não só do nosso país. Pra mim vale a pena viver disso, vale a pena viver assim. Ao mesmo tempo que é difícil, isso já trouxe muita experiência de vida, possibilidades de conhecer outras pessoas, outras cidades, outros países até. Tudo veio a partir disso. Então é filosofia mesmo, um jeito de lidar, um jeito de viver a vida.

Você sente o trabalho de vocês no Seloki, como um selo independente, tem uma produção muito diferente daquelas músicas de grandes gravadoras? 

Eu acho que a gente tem menos obrigações. Eles têm que bater metas. A gente ainda tem a liberdade artística que precisa pra fazer as músicas do jeito que a gente realmente acredita. Não tem ninguém que vai falar “Preciso de um hit pra amanhã”. Se você estivesse dentro de outro contexto, talvez uma gravadora grande pressionasse muito mais para você entregar dentro de um determinado prazo. E isso faz com que você tome outras decisões artísticas. Isso fora o padrão de qualidade deles, radiofônico, o jeito de fazer música, o jeito que o refrão tem que bater… A gente ainda faz a música de um jeito artesanal acreditando no sentimento ali do que a pessoa está fazendo. Eles fazem em linha de produção.

Partindo de 2015, quando vocês começaram a banda [Goldenloki], como você sente que os streamings mudaram o cenário da produção musical? 

Desde que a gente começou sempre foi streaming. Eu não cheguei a viver a outra época, do CD, do vinil. 

Como eu não vivi isso, eu não tenho esse referencial de como o streaming impactou. Eu tenho discos, LPs e eu ouvia CDs. Então eu vejo que os streamings, acompanhando toda essa revolução digital que a gente tem, de celular e de estar tudo a um clique, fizeram com que as músicas ficassem mais curtas, mais diretas ao ponto. Você ter um disco, talvez, hoje, já não seja mais de uma maneira geral o que mais impacta. Agora você faz playlists, você pode colocar as músicas na ordem que você quiser. Antes era outra forma de consumir música, as músicas tinham muito refrão, então quando chegavam na rádio, como esse era o único momento em que algumas pessoas ouviriam a música, era esse o momento que você tinha para atingir a pessoa. 

Eu não vou fazer juízo de valor para dizer se é melhor ou pior para a música em si, porque desde o momento em que a música começou a ser gravada, ela sempre esteve de alguma maneira ligada à limitação tecnológica ou à maneira que a tecnologia rolava no momento. No começo os vinis, os primeiros registros de música, eles não conseguiam gravar por muito tempo. Então as músicas lá no começo eram curtas também. À medida que foi se desenvolvendo, eles começaram a conseguir gravar mais instrumentos ao mesmo tempo. Pô, você ouve nos discos dos anos 70, é normal ter músicas de oito minutos, sete minutos. Então uma coisa meio que sempre caminhou lado a lado com a outra. 

Hoje a parada é streaming, é você ouvir com um clique. Então, para manter a atenção das pessoas, você precisa fazer uma música que é curta, que é barulhenta e que toda hora muda. Se ficar muito repetitiva, as pessoas vão começar a prestar atenção em outra coisa. Então a música tem que sempre estar chamando sua atenção. 

Mas nem todo mundo é assim, nem todo mundo quer seguir esse ritmo. Existe uma contracorrente de músicas que são mais contemplativas, mais repetitivas e até meditativas por conta disso. Porque, às vezes, a gente precisa ouvir uma música para se desligar dessa frenesi que é esse mundo híbrido que a gente tem hoje do orgânico com o digital.

Até que ponto vocês produzem uma música pensando no que os ouvintes vão querer, em contraponto com a direção artística e criativa da coisa? Existe algum receio da música não ir muito bem nas plataformas, das pessoas não ouvirem?

Com a nossa filosofia, a gente não é tão direto em fazer a música para as plataformas ou para os ouvintes. A música, primeiro de tudo,  tem que tocar quem está fazendo. Se ela não toca quem está fazendo, como você espera que ela vá tocar qualquer outra pessoa? Mas, a partir do momento que existe o bruto da música, que é o que toca as pessoas, aí sim vem essa ideia de, por exemplo – a não ser que a música peça muito –, não é necessário fazer uma música de oito minutos. Vamos fazer uma música concisa, porque hoje é assim que as paradas são consumidas. 

Outra coisa com que a gente se preocupa é com uma parte mais técnica, não tanto no artístico, que é se a música vai responder bem nos meios de reprodução que a gente tem hoje. Como muitas pessoas escutam no celular, não têm um sistema de som muito bom ou escutam com um fone de ouvido pequeno, a música tem que, no geral, chegar alta. E isso tem muito a ver com mixagem, masterização, garantir que a sua música vai traduzir bem para os diferentes meios de reprodução.

Como vocês mantêm o Seloki vivo? 

O selo, se ele fosse uma empresa que precisa de um caixa para se manter, ele já teria falido. O selo sou só eu e meu irmão, basicamente. A gente tem parceiros e colaboradores, mas é muito pouco o que a gente recebe, tanto de streaming quanto de Bandcamp. Então se eu tivesse que pagar salário pra alguém, já teria falido. Não é possível. Por mais que a gente faça todos esses trabalhos com o selo, eu não posso considerar ele como uma empresa que tem uma receita. É nesse momento que a coisa se mistura com o lado pessoal. Porque eu tenho que trabalhar como técnico de som, tenho que fazer shows, produção cultural, gravação e outros trabalhos para me sustentar. Não é do selo. A partir do trabalho do selo, surgem oportunidades de trabalho, como fazer uma curadoria… Porque, basicamente, tudo que entra do selo se auto-investe nele.

O Seloki sobrevive ao custo do nosso trabalho, do nosso suor. Seria ótimo se a gente recebesse mais e pudesse se estruturar melhor, ter pessoas trabalhando com a gente com um pagamento fixo. Hoje em dia a gente sobrevive de freelancers.

Minha história pessoal é que quando eu terminei o colégio, eu entrei em engenharia química pelo Enem, na Federal de São Carlos. Eu cheguei a fazer quatro anos, mas não era para mim. Eu tive o privilégio de poder sair e fazer outra coisa, porque muitas pessoas não podem. “Ah, mas não vai ganhar dinheiro, mas não sei o quê.” É, eu não tô fazendo isso pra ganhar dinheiro. Lógico que eu quero poder viver uma vida digna, e estou ralando muito há 10 anos pra isso. Desde que a gente se mudou pro estúdio Fiaca, que eu já me sustento 100% a partir de música. Passando muito perrengue, mas desde lá. Então, tá sendo possível. Mas é com dificuldade, assim como é pra maior parte dos companheiros e companheiras musicistas que a gente conhece.