Um fone de ouvido aparece no centro enquanto o desenho de um coração pulsa suavemente embaixo dele. Cabos de áudio contornam o fundo azul, criando uma sensação rítmica e musical.

A força dos super fãs na nova economia da música

Engajamento intenso movimenta comunidades, impulsiona vendas e pode gerar US$ 4 bi ao streaming até 2030

   

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O que começa como uma playlist favorita pode terminar em um fã clube, um portal de notícias ou até em uma futura carreira. É assim que os super fãs, personagens cada vez mais centrais na música digital, vêm redefinindo o impacto do engajamento e o desempenho dos artistas .A importância desse público não se limita apenas aos próprios artistas, mas também se estende para as plataformas de streaming. De acordo com a projeção realizada pelo banco de investimentos Goldman Sachs, monetizar os comportamentos de consumo desses fãs pode gerar 4 bilhões de dólares até 2030, o que representa crescimento de 16% das receitas do streaming por assinatura.

Os super fãs são ouvintes com mais de 13 anos que interagem com um artista por, no mínimo, cinco formas, como streaming, redes sociais, compra de itens oficiais, shows, eventos. O engajamento desse público consegue ir além do contato com o próprio artista: segundo a Luminate, os super fãs se conectam com outros músicos, participam de comunidades e são mais prováveis de descobrir e indicar novos artistas para o ciclo social.

Dentro das plataformas de streaming, esses fãs representam 2% dos ouvintes mensais de um artista, mas são responsáveis por 18% dos streams, segundo levantamento feito pelo Spotify para Artistas, em 2023. A liderança também se destaca na venda de produtos oficiais: essa mesma parcela de pessoas é responsável por 52% da compra de produtos de músicos.

Muito além do play

Além da forma de consumo musical, ser super fã também é identidade, fruição cultural e ferramenta de interação social. Para Fernanda Lima, virou até trabalho.

Ela é cofundadora do site 5SOS Brasil, dedicado à banda australiana 5 Seconds of Summer. O que no começo era uma forma de interagir com os membros da banda, com o tempo virou portal de notícias multiplataforma, canal de comunicação entre fãs e gravadoras, forma de divulgação dos projetos musicais e espaço de interação entre a fanbase. Funcionando de modo ininterrupto desde 2012, o portal hoje opera com uma equipe de cinco pessoas que se revezam em tarefas de redação, tradução, edição e comunicação.

“Comecei a ouvir e acompanhar o 5SOS quando eu estava no ensino médio, criei a página e comecei a trabalhar nela como hobby. Como eles são australianos, muito do conteúdo é em inglês, e, assim, acabei aprendendo o idioma muito por causa da banda. E, depois, por causa desse trabalho no fã clube, decidi cursar jornalismo”, conta Fernanda.

Site, X (Twitter), Instagram e TikTok do fã clube não são monetizados, ou seja, o trabalho feito pela equipe é totalmente voluntário, mas já rendeu alguns encontros com os artistas e parcerias com as gravadoras representantes deles no Brasil.

De forma diferente de outras páginas de fãs nas redes, o 5SOS Brasil não tem tanto foco nas paradas de sucesso – conhecidas nas redes sociais como charts, rankings que elencam as músicas mais ouvidas em determinado período. Em épocas de lançamento de álbuns ou singles, os fã clubes costumam organizar metas para streams em diferentes plataformas, com o objetivo de fazer esses lançamentos alcançarem boas posições nos rankings, despontando como sucessos desde o dia 1. Playlists, hashtags, memes, danças virais, passar a noite ouvindo a mesma música sem parar são estratégias comuns entre essas comunidades. Além do reconhecimento dos músicos, aumentar o número de ouvintes dentro do território nacional pode ajudar a trazer shows e eventos desses artistas para o Brasil.

“Hoje em dia não focamos tanto em fazer a música subir. O nosso objetivo é fazer com que as pessoas ouçam. O 5SOS é uma banda muito boa mas pouco reconhecida, porque eles ficaram no limbo entre uma boyband, como a One Direction, e bandas reconhecidas pela música, como o Coldplay. Temos a sensação de que mais pessoas poderiam estar ouvindo, porque a música é boa, a estética do novo álbum é ótima e o show deles ao vivo é incrível”, diz.

Para Ana Clara, artista e administradora do acervo Ana Frango Elétrico no X, o trabalho nas redes sociais é uma forma de falar sobre o seu interesse pela cantora carioca e compartilhar piadas nichadas para outros fãs. 

Ana Frango Elétrico se apresenta (Imagem: Ana Clara/Acervo Pessoal)

Frequentadora assídua de festivais e shows, já assistiu a apresentação da Ana Frango Elétrico e entende que o seu consumo musical é bem diferente do restante do ciclo social, por isso acaba gastando mais dinheiro, sem medo, com produtos musicais ou relacionados. Como escuta muita música independente, entende a importância do engajamento e presença em shows para os músicos menores.

“Quando uma artista fica em top 1 e é bem recomendada, mais pessoas vão ouvir e consumir músicas parecidas, gerando mais público para cena em si. Plataformas de streaming são, sim, muito importantes, só que o mais importante é fomentar essa cultura do show, porque o Spotify paga muito pouco e o dinheiro mesmo, o apoio, está nos shows”, diz.

Ouvir música se torna uma atividade em constante movimento. Ela descobre um artista novo no line-up de um festival, ao ouvir um álbum recebe uma sugestão algorítmica no YouTube, conversa com um amigo e recebe uma indicação fora de tudo o que conhece, escuta playlists feitas por músicos, procura ativamente novas canções como referência artística. Assim, ser fã de música acaba estimulando a ouvir ainda mais.

“Acho que acabo consumindo músicas de muitos lugares diferentes e acho que, às vezes, as pessoas se mantêm num canto só para ouvir música. Por exemplo, a pessoa que consome um rap não gosta de música alternativa; a pessoa que gosta de rock alternativo, às vezes não gosta de jazz”, conta.