Giba não escuta mais música digital. Há algum tempo, cancelou todas as assinaturas de serviços de streaming e fez as pazes com o iPod esquecido na gaveta.
Claro, os streamings são mais convenientes, com acesso de qualquer lugar do mundo, milhares de canções a um clique de distância, playlists personalizadas… mas para ele, como músico, compositor e ouvinte, os danos colaterais desses serviços são ainda maiores: algoritmos que decidem o que há para ouvir, curadoria editorial pouco transparente, músicas feitas por inteligência artificial, sistema de pagamento insatisfatório para artistas e questões políticas.
Por isso, a decisão de sair do Spotify foi categórica. Mais de um ano e meio depois do lançamento do seu primeiro álbum, a peça indie rock poça platônica (2024), Giba iniciou o processo de retirada de todas as suas músicas da plataforma.

Em suas nove faixas, o álbum alcançou em média 15 mil streams no período. O número é grande, mas o retorno financeiro da plataforma foi pequeno – segundo o cantor paulistano, mais ou menos R$50 totais. “Não pagou nem o valor do transporte para eu ir apresentar um show.”
O dinheiro ganho pelos plays nas plataformas não podem ser comparados a outras formas de distribuição: “eu vendi um disco no Bandcamp que me deu trinta reais. Tipo assim, foi um! Se eu vender dois, já ganhei mais do que nas plataformas”.
“Querendo ou não, o streaming abriu as portas para muita gente poder lançar música que não poderia nos anos 90, por exemplo, que você precisava de uma gravadora. A indústria da música sempre foi assim. Sempre foi sobre estar no lugar certo, na hora certa, de conhecer a pessoa certa. Mas isso não mudou na era dos streamings, se tornou uma indústria ainda mais predatória: com grandes empresas tentando capitalizar em pequenos artistas.”
Apesar de suas críticas se estenderem a todos os serviços desse modelo de negócios, o poça platônica só foi retirado do Spotify e não de outras plataformas de streaming, como Deezer, Apple Music e YouTube. Por trás dessa decisão, está o estudo das diferentes estratégias de circulação da música e questões políticas do músico.
“O CEO investiu em armas e inteligência artificial para poder militar. Eu não quero que minhas músicas estejam dando dinheiro para esse cara. Mas eu acho que todas as plataformas elas contribuem para esse mercado”, diz.
Na mesma onda, outros músicos ao redor do mundo também compartilham essa inquietação.
O poça platônica, álbum experimental e indie rock, pode ser ouvido na íntegra no Bandcamp ou em demais plataformas de streaming de música (que não o Spotify).
Ao redor do mundo
A linha do tempo começa com o lançamento do livro “Mood Machine: The Rise of Spotify and the Costs of the Perfect Playlist”, de Liz Pelly, em janeiro de 2025, texto que critica o algoritmo e o sistema de pagamento do Spotify.
Em junho, Daniel Ek, CEO do streaming sueco, investiu 600 milhões de euros (cerca de R$ 3,5 bilhões) na startup Helsing. A empresa desenvolve software militar baseado em inteligência artificial e produz drones, aeronaves e submarinos, tecnologias utilizadas por países europeus para a defesa da Ucrânia contra a guerra com a Rússia.
O investimento de Ek em tecnologia militar provocou, no mesmo mês, a decisão de alguns artistas e bandas de retirarem suas discografias do Spotify. King Gizzard & the Lizard Wizard, Xiu Xiu, Deerhoof, Hotline TNT e Godspeed You! Black Emperor criticaram, além do envolvimento com a Helsing, a inserção de conteúdos de IA na plataforma, o impacto ambiental das big techs e o modo como “usam a palavra ‘democracia’ como cortina de fumaça para o que nada mais é do que puro lucro de guerra.”
Lançada em setembro, a iniciativa No Music for Genocide reuniu mais de mil músicos e gravadoras, em boicote cultural a Israel, pelo genocídio palestino. Músicos ao redor do planeta bloquearam o catálogo dentro dos territórios israelenses, dentre eles o grupo Massive Attack, que também fez a retirada completa da discografia no Spotify e acusou a Helsing de produzir armamentos para Israel.
Em nota, a startup negou qualquer envolvimento em guerras além das “agressões da Rússia contra a Ucrânia”. O Spotify também se manifestou frente às acusações da banda e disse que a plataforma e a startup são duas empresas separadas.
Em outubro, embalados pelas movimentações recentes e críticas ao modelo de streaming musical, artistas independentes dos Estados Unidos se organizaram em um circuito de palestras chamado Death 2 Spotify (Morte ao Spotify). Segundo o The Guardian, os músicos construíram um objetivo muito claro, com base nos argumentos tecidos pelo livro de Liz Pelly: “Abaixo a escuta algorítmica, abaixo ao roubo de direitos autorais, abaixo a música gerada por IA”.

As organizadoras do evento, Manasa Karthikeyan e Stephanie Dukich, afirmaram que não é um apelo para fechar a plataforma, mas incentivar as pessoas a pensarem mais sobre o modo como consomem música.
O boicote de Giba segue o mesmo pensamento: “Eu não vou destruir o Spotify. Eu não vou mudar o mundo, mas eu sinto que, aos poucos, posso influenciar as pessoas próximas de mim”.
Construindo um público fora das métricas
Em busca de alternativas para os streamings e viabilização financeira da produção musical, o músico chegou ao conceito do próximo disco: a experimentação.
Por trabalhar com audiovisual e não depender, diretamente, do desempenho das músicas, Giba se permitiu experimentar novas formas de fazer seus projetos musicais circularem. “O meu objetivo principal com música não é ganhar dinheiro. Eu ganho dinheiro fazendo a parte de vídeo, visualizer, instalação. Assim, percebi que eu posso tentar”, conta.
No mercado independente, há espaço para se arriscar, já que o público se envolve com a música de formas diversas. No Brasil, dados de 2023 da IFPI mostram que as pessoas utilizam, em média, mais de oito formas diferentes para se relacionar com a música. Do total de tempo dedicado à escuta, 37% ocorre em plataformas de streaming de vídeo, 32% em streaming de áudio, 10% no rádio, 6% em música ao vivo, 6% em músicas compradas e os outros 10% em outros meios, como a televisão.
Assim, a ideia do próximo disco, projeto nomeado Fagogo, é brincar com os diferentes formatos que a música pode tomar. Todo gravado de forma analógica na fita cassete, o álbum é voltado para as mídias físicas: CD, fita cassete, mini disc, pen drive e nenhuma plataforma digital além do Bandcamp e áudios MP3 disponibilizados na nuvem. O disco ainda não tem previsão de lançamento.
Bandcamp é uma loja de discos online e comunidade musical. Na plataforma, os ouvintes conseguem descobrir novas músicas, se conectar e apoiar diretamente os artistas, de forma a fortalecer o vínculo direto entre artistas e fãs.
“Eu quero um público que dê esse passo, sabe? É muito mais conveniente abrir o aplicativo, pesquisar meu nome e encontrar tudo. Mas não é esse público que eu quero. Eu quero o público que dá um clique, que baixa os arquivos, que transfere os arquivos para um iPod. É o público que tem essa vontade, que tem essa opinião parecida comigo, tem esse posicionamento político parecido comigo e que não vai achar um problema”, explica Giba.

“Eu quero ser o artista que as pessoas vão falar: ‘p***, eu tenho um álbum super legal para te recomendar, mas só tem no YouTube’, sabe? Para mim isso é muito Rock & Roll.”
E se os arquivos forem compartilhados de graça na internet? Giba não se importa, já que também não seria pago devidamente se os streams fossem feitos nas plataformas. Ele admite que esse passo vem de um lugar de privilégio por não depender financeiramente da música, mas também de uma vontade de construir o próprio público e desapegar das métricas. Para ele, mil ouvintes no streaming é um número legal, mas 100 pessoas comprando um CD é muito mais.
“Nos apegamos muito às métricas, mas acho que a métrica do dinheiro é uma ótima forma de perceber o quão desgraçadas são, de modo geral, as plataformas digitais. A métrica dos ouvintes também é outra grande cilada, porque contabiliza a pessoa que ouviu sua música apenas uma vez, por 30 segundos, e te deixa super feliz por ter mil pessoas ouvindo, mas esse número não reflete bem se há, de fato, reconhecimento.”
