Os brasileiros escutam mais música nacional do que internacional, e essa tendência no consumo musical se torna mais notável a cada ano. No entanto, apesar do crescimento da música nacional, a concentração econômica e estética se mantém: o sucesso está cada vez mais restrito a poucos gêneros, como sertanejo, funk e pop nacional. A música brasileira domina o mercado interno, mas nem toda música brasileira circula no mercado.
As canções nacionais protagonizam o top das 200 músicas mais ouvidas no Brasil: segundo listas divulgadas anualmente pela Pro-Música, essa liderança tem aumentado consistentemente desde 2018, atingindo o pico de 93.5% em 2024. Neste ano, segundo o Relatório de Música de Meio de Ano de 2025, da Luminate, o cenário se mantém parecido: o Brasil é o país da América Latina com maior consumo de produtos nacionais. Até julho, 74.7% dos streams feitos em plataformas foram para artistas brasileiros.
A razão dessa predominância ainda não é completamente compreendida pelos pesquisadores e pela indústria. Entre as principais hipóteses estão o fato de que o consumo de música no Brasil é historicamente voltado para produções nacionais, as barreiras linguísticas e o vasto leque de opções internacionais, que dificulta a curadoria.
À medida que a música brasileira ganha mais espaço no mercado interno, a presença de músicas internacionais nas paradas diminui: caiu de 35% em 2016 para apenas 5% em 2023. Esse espaço foi ocupado por poucos gêneros nacionais que dominam as plataformas de streaming: sertanejo, funk, forró, rap, pop nacional, música religiosa e pagode. Com isso, muitos outros estilos e subgêneros da música brasileira acabam ficando fora das paradas de sucesso.
“[A predominância brasileira] é uma notícia ambígua. Por um lado, é muito boa e mostra a força da indústria nacional de música para os artistas brasileiros; por outro, é ruim e revela uma monocultura que controla o fluxo de música nessas plataformas digitais”, aponta Leonardo De Marchi, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ) e coordenador do programa de pós-graduação em Comunicação e Cultura.
Consequências estéticas
Qualquer pessoa pode compor uma música e disponibilizá-la na internet, mas ganhar visibilidade é um grande desafio dentro da indústria fonográfica. Segundo De Marchi, o algoritmo das plataformas é um dos motivos da queda de diversidade entre as músicas mais ouvidas.
Com catálogos musicais que variam de 90 a 100 milhões de arquivos nos principais serviços, o excesso de informação pode causar desnorteamento dos usuários. Para não afastar os ouvintes, as plataformas utilizam um sistema de mineração de dados para prever o comportamento dos consumidores e sugerir novas músicas: o algoritmo.
“Esse sistema acompanha o que a pessoa vai ouvir e mistura com o que outras pessoas do sistema estão ouvindo através de traços: que horas a pessoa escuta a música, que tipo de gênero, qual a batida. Todas essas características são fracionadas, o que permite que ele misture vários tipos de público e possa fazer, então, novas sugestões sempre”, explica o professor.
Para continuar a oferecer novas músicas que o usuário possa gostar, os algoritmos precisam garantir que a pessoa fique “presa” no sistema, entregando faixas que, com certeza, irão agradar. São variações do mesmo tema a cada música conhecida ou desconhecida.
“Isso é uma consequência importante da cultura contemporânea – que não é algo que os serviços de streaming de música inventaram, mas que eles desenvolveram de uma forma muito eficiente”, diz.
Para os músicos, a alta rotatividade entre as faixas diminui a quantidade de streams e, logo, o valor monetário que é pago a eles. Em busca de ganhar mais reproduções, os artistas se adaptam esteticamente à playlists em alta e às músicas que estão circulando pelas redes, para que o sistema algorítmico reconheça os padrões musicais semelhantes e faça a sugestão dessas faixas aos ouvintes.
“Os artistas têm que se adaptar esteticamente às playlists e aos formatos como as pessoas escutam música hoje, como no TikTok e Instagram”, diz De Marchi.
Essas adaptações não são, necessariamente, plágio. Elas podem se encaixar em tendências do mundo da música: extensão das faixas, introduções curtas, refrão marcante ou letras que já sugerem alguma dança específica para as redes.
Um exemplo é a duração das faixas de destaque nas paradas. De acordo com um estudo conduzido por Michael Tauberg, com os dados da Hot 100 entre 2000 e 2018, a média de tempo das canções mais ouvidas caiu de 4:10 para 3:30 minutos.
Em 2024, esse número foi ainda menor. Segundo o relatório da ChartMetric, a maioria das faixas que apareceram nas paradas globais do Spotify tinham entre 2:51 e 3:09 minutos.
As diferenças nas estéticas e tendências musicais refletem as preferências e formas de consumir dos ouvintes. “Muito da estética dos artistas vem de tendências do público, que, na verdade, querem essas canções muito parecidas, porque elas formam uma ambiência para ouvir música.”
Formatação da música
A adaptação das músicas, no entanto, sempre foi uma realidade – desde o surgimento da indústria da música gravada, com a invenção do fonógrafo, em 1877, por Thomas Edison. Os primeiros discos (78 r.p.m.) tinham capacidade de armazenamento de, em média, 4 minutos de som em cada lado; depois surgiu o Long-Play (LP) com 22 minutos em cada lado; o Compact-disc (CD) com cerca de 70 minutos; e, por fim, o MP3, com compressão de arquivos que permite músicas de longa duração.
“A produção musical é influenciada pelo formato no qual a música vai sair desde que se toca nas casas de aristocratas na Idade Média. A partir do momento que a gente tem os formatos da música gravada, do registro, temos ainda mais tentativas de adaptar a gravação para caber no formato”, explica Dani Gurgel, musicista e doutora em ciências da comunicação.
“Todas as mudanças de técnicas de gravação, registro e distribuição vão alterar alguma coisa na música que é produzida, porque quem produz música quer que ela chegue da melhor forma possível para quem vai consumir através daquela mídia.”
Hoje, com o MP3, não existe a limitação física que existia com o vinil ou o CD. A duração de álbuns ou o lançamento de singles são escolhas editoriais, independentes do formato de publicação.
Ao compor músicas, segundo Dani, é necessário pensar no meio e no ouvinte final. Para a rádio, por exemplo, o objetivo é que a música fique na cabeça das pessoas para que peçam para tocar novamente. Assim, a composição ganha uma introdução maior para o DJ apresentar a faixa e um refrão marcante (e chiclete).
“No streaming, você precisa cativar as pessoas logo na introdução para que elas não deem skip na sua música”, explica. Por isso, começam a surgir canções que já iniciam pelo refrão, uma forma de prender a atenção e também identificar a faixa logo nos primeiros segundos. O título das faixas também faz toda a diferença nos mecanismos de pesquisa dentro das plataformas.
“Cada vez mais as músicas estão sendo feitas para funcionar no streaming e para que as pessoas as achem facilmente. Primeiro você quer que ela seja entregue para mais pessoas, e que, ao tocar, a pessoa não dê skip. Ninguém falou: ‘Ei, produtores musicais, comecem a fazer música dessa forma’. Mas, no final, dá mais certo fazer música assim por causa da entrega da plataforma.”
Dados para artistas
Para analisar as métricas, entrega e engajamento dos ouvintes, algumas ferramentas online fornecem os dados para produtores e artistas – como Spotify for Artists, Deezer for creators e Chartmetric. Mas, de acordo com a pesquisadora, a leitura feita a partir desses números pode ser rasa para entender as razões de uma música apresentar bom ou mau desempenho.
Dani exemplifica erros que podem ser cometidos por músicos que não sabem interpretar os dados: “Apesar de eu ter várias músicas com temática feminista, 70% dos meus ouvintes são homens. Não é por causa da minha temática, é porque a plataforma fez uma conta algorítmica – provavelmente, vozes femininas são entregues para ouvintes masculinos. Também discordo em gênero e grau da classificação musical em que me colocam, mas quando eu olho minhas tags dentro do Spotify, eu vejo Bossa Nova em todas as minhas músicas. Tem música minha que não tem violão, mas que tem a tag violão. São tags que vem no automático e não tem alguém revisando.”
Tags são rótulos ou categorias automáticas atribuídas pelo algoritmo das plataformas para descrever características das músicas. Elas servem para organizar o catálogo e influenciam diretamente nas recomendações e na forma como as faixas são apresentadas aos ouvintes
A partir dessas análises, os artistas podem tomar decisões criativas baseadas em dados que mostram o desempenho de suas músicas nas plataformas. No entanto, a alta popularidade nas redes sociais nem sempre reflete o impacto real da parte criativa da produção sonora. Músicas que viralizam rapidamente — seja por virarem memes, estarem ligadas a danças populares ou por conta do número de seguidores nas redes sociais — nem sempre garantem um retorno consistente e a receita do sucesso pode não se repetir.
Uma pesquisa conduzida pela MIDiA Research concluiu que números virais nas redes não são traduzidos em streams e engajamento de fãs nas plataformas ou vendas físicas, já que o ecossistema de descoberta musical é bem mais variado. A pesquisa global contou com respostas de 10 mil participantes que usam diversas plataformas. O Youtube despontou como a principal forma de descobrir música (52%), seguido pelos serviços de streaming (40%) e o TikTok (37%).
Apesar da porcentagem expressiva, o relatório afirma que “quando os usuários do TikTok descobrem artistas, eles se interessam mais em seguir seu conteúdo do que em ouvir suas músicas em plataformas de streaming. O TikTok está impulsionando mais o consumo do próprio TikTok do que o consumo de streaming”.
O engajamento dos usuários varia de acordo com a faixa etária, no entanto, de forma geral, menos da metade salvam as músicas no streaming, em média 35% ouvem a música e outras faixas do artista, menos de 20% dão stream na música (mas não no artista) e apenas 25% viram fãs do artista.
Por isso, Dani explica que conhecer o público ouvinte é mais importante do que ganhar grande quantidade de seguidores nas redes. Por exemplo, um cantor pode ter um milhão de seguidores, mas que estão espalhados pelo mundo todo, e, por isso, não irão comprar um ingresso de show.
“Vejo muita gente estudando errado e tomando decisões ainda piores, achando que estão manjando muito em analisar os dados. Se alguém disser que tem uma fórmula, está mentindo. Se alguém disser que você tem que fazer o que a plataforma está te dizendo, ela está mentindo.”
Por outro lado, a curadoria de casas de shows e festivais, por exemplo, ainda olha para a visibilidade nas redes. “Para a grande maioria dos artistas, o dinheiro vem da performance ao vivo. Mas esses também são espaços controlados. Não existem milhares de palcos na cidade e as pessoas não se apresentam em qualquer lugar. Elas precisam ter uma visibilidade na rede para estar nos lugares”, aponta Eduardo Vicente, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Estar nas plataformas, mostrar a cara nas redes sociais e lançar videoclipes: tudo isso gera engajamento que pode destacar os artistas em circuitos culturais. Para os independentes, que têm baixo retorno financeiro dos direitos autorais, a presença nesses espaços digitais não se converte em monetização, mas em portfólio para as vendas de ingressos.
“Funciona muito mais como um espaço de visibilidade. Se pensar bem no que custa a produção musical, os artistas menores basicamente pagam para estar nas plataformas. Porque o valor para disponibilizar uma música lá é muito mais alto do que o retorno financeiro que a plataforma dá”, contrapõe Vicente.
