A imagem mostra uma mão segurando um smartphone, com um efeito visual colorido de duplicação nas cores azul e roxa, sobre um fundo verde-claro.

Digitalização da música promoveu ‘destruição criadora’ da indústria fonográfica

Do auge dos CDs ao colapso com o MP3 e à consolidação das plataformas de streaming, o mercado da música reinventou-se sob a lógica dos dados, dos algoritmos e da financeirização da música

   

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Da pirataria digital ao domínio do streaming, a indústria fonográfica passou por uma das maiores revoluções de sua história nas últimas três décadas. Impulsionada pelas tecnologias digitais e pela popularização da internet, a forma de produzir, distribuir e consumir música mudou radicalmente.

O processo de mudança das natureza analógica (vinis, CDs, DVDs) da economia da música para a natureza online da economia digital foi chamada de Destruição Criadora na tese de doutorado de Leonardo De Marchi, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ) e coordenador do programa de pós-graduação em Comunicação e Cultura. 

A imagem mostra um homem de óculos, usando blazer bege e camisa azul, posando diante de uma estante com livros. O ambiente parece ser um escritório ou biblioteca.
Leonardo De Marchi, pesquisador e professor da UFRJ (Imagem: Acervo pessoal)

Em entrevista, o professor e pesquisador explica, nos âmbitos internacionais e nacionais, o mercado fonográfico, o desenvolvimento das plataformas de streaming musical e a adesão da indústria e dos ouvintes.

Combate ao ‘ponto a ponto’

Na metade da década de 1990, a indústria da música adotou tecnologias digitais nas produções fonográficas, impulsionada pela baixa demanda do formato disco. Os equipamentos digitais de gravação possibilitaram a proliferação de estúdios por todo o país, os CDs aumentaram o consumo de música e o crescimento de gêneros periféricos e regionais. Nesses anos, a indústria fonográfica vivia seu ápice econômico.

A virada do século trouxe consigo um combo de novas tecnologias que digitalizaram o último ramo analógico dessa indústria: a distribuição de música. O MP3, a compressão de áudio digital, os programas de reprodução digital e o compartilhamento de arquivos entre usuários criaram uma nova configuração do mercado da música que conquistou rapidamente os consumidores, mas desagradou os agentes da indústria fonográfica.

Esse desagrado era fruto da perda do controle sob a distribuição musical e, logo, dos direitos autorais das gravações. Os equipamentos e formatos digitais possibilitaram o comércio de CDs pirateados e a troca de arquivos entre os usuários (P2P), diminuindo consideravelmente as receitas do mercado fonográfico. 

Peer-to-peer ou P2P, na tradução para o português, significa ponto a ponto. O termo se refere a um tipo de arquitetura de rede de computadores em que cada participante (ponto) é também um servidor, e ajuda a manter o sistema funcionando através do compartilhamento de arquivos. Um dos grandes exemplos desse tipo de rede é o uTorrent.

“A partir daí, a indústria fonográfica – que tinha passado 100 anos se especializando na produção de discos com música gravada – teve dificuldades em se adaptar ao novo contexto do mercado, aquilo que na sociologia econômica chamamos de dependência de trajetória”, aponta Leonardo De Marchi.

A primeira reação da indústria foi processar empresas (startups de P2P), com dois objetivos: extinguir aquele tipo de experiência tecnológica de distribuição ou forçar esses players a negociarem dentro da economia da música.

O caso mais emblemático dessa luta foi o julgamento do Napster, software criado em junho de 1999 pelos norte-americanos Shawn Fanning e Sean Parker. O sistema de catálogo e compartilhamento de arquivos MP3 do aplicativo permitiu, pela primeira vez, que a música gravada estivesse disponível para qualquer um instantaneamente – e de graça. Não demorou muito para os primeiros processos judiciais chegarem: em dezembro do mesmo ano pela associação das gravadoras dos EUA (Riaa), em maio de 2000 pela banda Metallica e, por fim, uma decisão que ordenava o Napster a parar de permitir a troca de arquivos entre usuários.

O cenário não era muito diferente no Brasil. Associações relacionadas à indústria fonográfica apreenderam milhões de cópias falsificadas de CDs e DVDs, desativaram fábricas clandestinas, removeram páginas ilegais que disponibilizavam arquivos MP3 e promoviam campanhas de conscientização sobre a pirataria. Segundo o relatório de 2003 da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), os resultados negativos do mercado fonográfico brasileiro eram, principalmente, causados pelo quadro de pirataria no país.

Essa imagem mostra o logotipo do iTunes, representado por uma nota musical em tons de rosa, roxo e azul dentro de um círculo branco com borda colorida em degradê.
Logo do iTunes (Imagem: Wikimedia Commons)

A primeira experiência dos titulares dos direitos autorais em negociar com o mercado de informática aconteceu com a Apple, que desenvolveu o iTunes, player de reprodução e compra de música digital. Segundo De Marchi, foi uma negociação positiva, que mostrou que se poderia cobrar pela música digital. “A solução que a indústria fonográfica foi buscar, ironicamente, era no peer-to-peer.”

O mercado fonográfico aceitou que as empresas de P2P distribuíssem os conteúdos, mas desde que cumprissem uma série de regras: entre elas, reter o fluxo dos arquivos digitais (ou seja, sem downloads). Para isso, era necessário desenvolver uma tecnologia que controlasse os arquivos. E, assim, surgiu o streaming.

Leonardo fala sobre comparação com o P2P, streaming como tecnologia ao invés de serviço, construção do modelo de negócios.

Financeirização da economia da música

Dessa forma, pressionadas pela lógica dos detentores dos direitos autorais, os streamings eram tecnologia antes de virar serviço. 

Para competir com o P2P, houve um processo de construção de um modelo de negócio que reunisse muitos conteúdos, tomasse controle do fluxo e, tudo isso, com o preço mais baixo possível – caso contrário, as pessoas continuariam no P2P.

O primeiro passo desse modelo de negócio foi se estabelecer como plataforma global, negociando com gravadoras, ao mesmo tempo que desenvolviam sistemas de recomendação e de coleta de dados dos consumidores (para venda a mercados secundários de publicidade).

“[Os streamings] tomaram emprestadas várias fórmulas do mercado financeiro de valorização de ativos e construíram uma forma dinâmica de pagamento para os titulares dos direitos autorais. Eles desconsideraram a parte dos músicos intérpretes (dos direitos conexos), só pagam os direitos fonomecânicos e de execução pública em alguns países, como o Brasil, explica o pesquisador.

Direitos fonomecânicos: direitos de um autor sobre a reprodução de uma música gravada.

Direitos conexos: protegem o fonograma, incluindo intérpretes, músicos, executantes e produtores fonográficos, que não são os compositores.

Assim, o modelo de negócio dos streamings é um modelo que financeiriza a economia da música. “O músico perde a ideia de que vai ter um contrato com uma gravadora – a gravadora vai cuidar dele, que vai dar uma parte da vantagem da venda de discos, dos shows. Eles entram numa lógica de lançar a sua música nessas plataformas digitais e acompanhar o desempenho das músicas, o que faz com que o retorno financeiro para os músicos seja sempre um ponto de interrogação.”

Os streamings no Brasil

Entre 2000 e 2010, surgiram algumas iniciativas brasileiras para criar um mercado fonográfico digital baseado em tecnologias de distribuição via internet e autorizada, como o Trevo Digital e o Sonora.

“Foi muito interessante, mas, no geral, elas não conseguiram dar escala ao mercado fonográfico digital no Brasil, porque, sobretudo, os produtores de conteúdo não abraçaram essas empresas, não viam nelas a capacidade de alavancar o mercado de música”, diz De Marchi. Não houve investimentos antecipados para produção musical para os serviços e, por sua vez, o público não se interessava pelas empresas por falta de conteúdo.

O comunicado diz: 
"A partir de 1º de março de 2012 Artistas e Ouvintes do website Trevo Digital não conseguirão mais baixar nem subir músicas pelo site, pois o Trevo Digital passa a não mais existir.

Nós descontinuamos as vendas e o desenvolvimento do site após 04 anos de atividade. Muitos provavelmente estão se perguntando porquê, mas o motivo é bastante simples; A Trevo Artes Ltda com sua plataforma Trevo Digital é um negócio e como tal precisa ter um lucro. Se você não obter lucro por muitos anos e continuar a operar, a Receita Federal vai classificar o negócio como um hobby e isto não nos trás muitas vantagens.

Somado a isto, muitos artistas tem escolhido promover suas obras musicais através do download gratuito, o que fez diminuir a entrada de novos trabalhos autorais e conseqüente busca por novidades.

Agradecemos a todos os Artistas, Selos e Gravadoras que escolheram nossa plataforma para promover suas obras musicais e assim nos prestigiaram.

Agradecemos aos usuários ouvintes de musica que apoiaram os artistas independentes, através da compra de musicas, audições e compartilhamento.

Até a próxima!"
Comunicado de descontinuamento do Trevo Digital (Imagem: Reprodução)

O início da década de 2010 trouxe novidades com a entrada de players internacionais no mercado brasileiro, como o iTunes e o Youtube. Essas e as demais plataformas estrangeiras chegavam no país com dinheiro para investir nos artistas nacionais, estabelecendo o mercado e promovendo a adesão massiva de editoras, gravadoras grandes e independentes, e artistas autônomos – além de criar novos agregadores digitais, distribuidoras que atendem músicos de qualquer tipo de porte.

Esse novo ecossistema midiático, segundo o pesquisador, criou um mercado da música que não era mais baseado no sistema consumidor-produtor do Peer-to-Peer:

Leonardo fala sobre o crescimento das plataformas e da indústria fonográfica, abertura do mercado

Música por música, playlist por playlist

Se, para a indústria fonográfica, a adesão aos serviços de streaming aconteceu pelo investimento financeiro e abertura do mercado, para os ouvintes aconteceu por diversos outros fatores.

No início dos anos 2000, enquanto os serviços de download vendiam música a granel, o P2P proporcionava discografias inteiras de graça para os ouvintes, além de terem acervos mais amplos – por isso a preferência dos usuários.

Quando os streamings chegaram ao Brasil, a transição entre gratuidade e serviços pagos não foi instantânea. Por um tempo, essas empresas enfrentaram déficits financeiros e conseguiram se manter devido ao alto investimento. Com o tempo, ficou cansativo baixar música por música, álbum por álbum, quando havia catálogos inteiros disponíveis em um clique nos streamings. Esses aplicativos tinham muito mais comodidade que os arquivos MP3 disponíveis na internet.

“O que acontece ao mesmo tempo do desenvolvimento dos serviços de streaming? A aparição do smartphone e a sua economia de aplicativos faz com que o acesso aos conteúdos digitais sejam muito mais fáceis”, aponta De Marchi.

No celular, no laptop, no carro ou na televisão; com ou sem internet. As músicas estavam em todo o lugar que o ouvinte estava, inclusive nas redes sociais, com as parcerias entre empresas de comunicação e mídia.

Somados à comodidade, as playlists viraram objetos centrais do consumo de música que, aliadas ao algoritmo das plataformas, mudou o modo de se ouvir música.

Leonardo explica a adesão dos ouvintes relacionando o poder curatorial dessas plataformas e o desenvolvimento de tecnologias de recomendação