Em 2024, o mercado fonográfico alcançou, pela primeira vez, um faturamento na casa dos R$3 bilhões e manteve seu posto como principal mercado da América Latina. Mas nem sempre foi assim.
Gravação, produção, distribuição e vendas de música são todos processos relacionados ao mercado fonográfico, um dos segmentos que compõem a receita do mercado da música junto aos shows, compra e venda de equipamentos, fomentos públicos e direitos autorais.
Na virada do século 21, o cenário desse segmento era de crise. Com a queda abrupta nas vendas de CDs e DVDs e a disseminação da pirataria digital, a indústria fonográfica batalhava para se manter relevante. A solução para esses problemas, no entanto, surgiu da internet: os streamings.
Realidade irreversível dos streamings
Até 2007, a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD, atual Pro-Música), não divulgava os números relativos à venda digital de gravações – que, naquela época, eram resumidos apenas a serviços de telefonia móvel e downloads pagos – nos relatórios do mercado fonográfico brasileiro. Porém, nesse ano, com a queda de 31,2% das receitas geradas pela venda física (CDs e DVDs), a rota precisou ser recalculada.
Isso porque a indústria fonográfica lutava contra a pirataria digital de música, um baque causado pela internet e o recém chegado formato MP3. “A indústria fonográfica detinha os direitos autorais, mas também detinha o controle tecnológico sobre a forma pela qual essas músicas eram distribuídas para as pessoas. O que vai acontecer com a internet é que, pela primeira vez, a indústria perdeu o controle”, explica Eduardo Vicente, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
No relatório de 2007, o presidente da ABPD, Paulo Rosa, destacou a preocupação do mercado: “O percentual maior de redução nas vendas em valores do que o de unidades vendidas, indica claramente que houve queda nos preços de CDs e DVDs musicais, motivada principalmente pela continuidade da oferta de produtos piratas em todas as regiões do País, e pela chamada pirataria ‘online’ através da Internet.”
Ao começar a considerar o faturamento digital, as receitas anuais conseguiram se manter estáveis, mesmo com a queda cada vez maior do faturamento das vendas físicas. Até 2015, os crescimentos (de no máximo 8%) e quedas (de no máximo 4%) foram tímidos, quando o mercado digital de música ultrapassou os rendimentos das vendas físicas e se tornou a principal fatia da indústria fonográfica.
Segundo o pesquisador, após inúmeras tentativas de controlar e retomar o controle tecnológico nessa indústria, o mercado da música gravada percebeu que para se manter funcionando era necessário garantir a detenção dos direitos autorais.
No relatório de 2015 destacava-se: “A continuidade do recuo de vendas físicas e, em contrapartida, o desempenho significativo do mercado de música digital certificam que a distribuição de música gravada através de meios digitais já é uma realidade irreversível, seja por streaming, downloads ou telefonia móvel.”
Crescimento digital
A tomada de importância do mercado de música digital acompanha o histórico de seus três modelos principais: a telefonia móvel, que são as vendas de conteúdo musical (como ring-tones e faixas) por meio de operadoras; os downloads, que representam as vendas online de faixas ou álbuns nos quais o consumidor adquire o arquivo; e os serviços de streaming, que oferecem o acesso à música como um serviço, sem disponibilizar o arquivo para download.
Em 2007, quando os rendimentos do mercado digital começaram a ser contabilizados, a telefonia móvel era a maior parcela dessa indústria, mas que, aos poucos, perdeu seu espaço para os serviços de download e streamings nacionais (nessa época, contabilizados juntos). Essa virada aconteceu em 2010, com o sucesso e crescimento do Sonora, serviço oferecido pelo Terra, e do YouTube.
O Sonora foi criado em 2006. Uma “jukebox virtual” que reunia mais de 1 milhão de músicas. Os usuários criavam perfis para ouvir e compartilhar músicas com os amigos, de forma gratuita ou paga. Os assinantes pagavam cerca de R$20 por mês e tinham o direito de fazer o download das faixas.
O florescimento do mercado de música digital brasileiro foi reconhecido pela indústria internacional, que considerou o país como porta de entrada para outros setores da América Latina. Os novos investimentos permitiram que o mercado digital, em especial o segmento de streamings, ocupasse uma parcela maior da receita de música gravada.
“O Brasil reúne muitos dos elementos necessários para sustentar um mercado de música digital em forte crescimento; um cenário de gravadoras robusto, um setor varejista em desenvolvimento; e uma infraestrutura tecnológica em constante evolução. Se o governo investisse mais na proteção dos direitos de propriedade intelectual online, isso fortaleceria as bases necessárias para o crescimento futuro.”
Trecho do Relatório de Música Digital de 2013 (tradução livre, p.22), produzido pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).
“No começo não foi tão simples, porque existia uma resistência muito grande das pessoas em pagar por serviços. Era uma transformação da cultura da internet, do livre e do gratuito, para a cultura do serviço pago. Essa foi a grande batalha no começo, em que mesmo grandes empresas, durante muito tempo, foram deficitárias”, aponta Vicente. Ou seja, empresas do ramo com maior capital e investimento conseguiam se sustentar mesmo diante de déficits.
Assim, mesmo com um bom desempenho no começo da década de 2010, a chegada das plataformas musicais estrangeiras abalou o equilíbrio das iniciativas brasileiras, que tinham um catálogo reduzido e pouco incentivo estatal. “O Spotify, na Suécia, recebeu muito incentivo do governo, por entender estrategicamente a importância daquele negócio. No Brasil, as iniciativas que vimos eram empreendedores ‘solitários’, que infelizmente não receberam a devida ajuda para crescer com robustez e lidar com a concorrência de fora”, explica Leo Morel, analista e pesquisador do mercado musical.
Segundo Morel, as empresas estrangeiras já chegaram ao Brasil com capital consolidado e estratégias de marketing muito fortes. A Deezer, por exemplo, foi a segunda empresa a entrar no mercado brasileiro, em 2013, com um acervo de mais de 20 milhões de músicas, seis meses de acesso gratuito para todos os usuários e, mais para frente, uma parceria com a operadora Tim.
A comodidade oferecida pelos serviços de streaming, foi um aspecto chave no crescimento desse setor – não só no Brasil, mas também no mundo. Com acervo robusto disponível nos smartphones, planos gratuitos, acesso offline e sem necessidade de baixar arquivo por arquivo, as plataformas cresceram cada vez mais no mercado da música gravada.
Brasil vs Mercado internacional
Mais de uma década após a entrada do primeiro serviço de streaming no Brasil, esse segmento continua em crescimento. Em 2024, representava 88% da receita total do mercado fonográfico e, ainda, com muitas possibilidades para serem exploradas – inclusive no âmbito internacional.
Segundo Leo Morel, a indústria da música gravada internacional tem comportamentos diferentes da indústria brasileira. Os serviços de streamings também foram importantes para a recuperação desse setor, mas em momentos distintos para o norte e para o sul global.
“Os países da África, África Subsaariana e América Latina têm sido os grandes responsáveis pelo crescimento desse mercado atualmente. Enquanto isso, países desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá e países europeus, apresentaram crescimento de um dígito, o que a gente chama sinais de estagnação”, explica.

A estagnação acontece porque esses países ricos não têm como expandir mais a sua base de consumidores, uma vez que grande parcela da população já é assinante das plataformas.
Em países subdesenvolvidos, por outro lado, em que grande parte da população tem pouco poder aquisitivo, os recursos são alocados para despesas básicas. “Ao passo que a economia desses países apresenta melhora e começa a sobrar um pouco de dinheiro no final do mês para essas pessoas, elas vão consumir entretenimento”, aponta Morel. Dessa forma, ampliando a base de consumidores daquele local e permitindo que o mercado continue em constante crescimento.
Em 2016, a queda do crescimento do mercado fonográfico no Brasil (-2%) pode estar ligada à crise econômica do período. Nesse ano, o Produto Interno Bruto (PIB), segundo o IBGE, fechou com uma queda de -3,3%.
No Brasil, país muito ligado à música, o consumo das gravações em suas mais diferentes formas movimentou o faturamento inédito de 3 bilhões de reais. Além de conseguir se manter na 9° posição entre os principais mercados musicais do mundo, o país também é considerado porta de entrada de empresas estrangeiras na indústria latina: eventos, festivais, gravadoras, serviços, distribuidoras e músicos.
Observações
*Gráfico 1: Até 2013, a ABPD calculava as receitas do mercado de música gravada sem incluir o setor independente. No entanto, em 2014, passou a calcular a soma dos independentes. Para fins de comparação com 2013, os valores relativos àquele ano foram ajustados de forma a permitir a aplicação do novo método e das novas categorias de receitas reportadas e uma correta comparação com as estatísticas de 2013.
Essa reportagem, no entanto, usou os dados da forma que eles foram apresentados em seus respectivos relatórios. Por isso pode haver inconsistências entre a porcentagem de crescimento apresentada entre 2013 e 2014. Para mais informações, acesse o relatório de 2014 aqui.
**Gráficos 1 e 7: Os dados relativos ao ano de 2015 foram omitidos por inconsistência dos números apresentados pelo relatório. Nele, não foram divulgados o faturamento total da indústria. A reportagem calculou o número de acordo com as porcentagens de crescimento comparado ao ano anterior (2015 com crescimento de 10,6% em relação ao ano anterior, 2016 com crescimento de -2,8% comparado ao ano anterior), mas também não obteve resultados condizentes. O relatório completo pode ser acessado aqui.
***Gráfico 2: No relatório divulgado em 2015, não consta a porcentagem de participação dos Direitos de Execução Pública e da Sincronização. Para manter a homogeneidade dos dados, a reportagem preferiu não inserir os números desse relatório..
