Por trás do som Rock Pop de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda De Tempo há diversas inquietações. Com o mundo, com a filosofia, com a própria música, mas também com a profissão, o ao vivo e as plataformas.
Os músicos paulistanos Sophia Chablau, Vicente Tassara, Téo Serson e Theo Ceccato formaram em 2019 a banda que, hoje, tem mais de 50 mil ouvintes no Spotify. Junto ao Selo RISCO, lançaram em 2021 o primeiro álbum, homônimo à banda, e em 2023 o disco “Música do Esquecimento”.
O poder do olho-no-olho do ao vivo é o que move a banda e funciona muito bem para os ouvintes já conquistados pelas músicas do SCUEPDT (sigla da banda), mas há ainda os esforços para serem ouvidos por novas pessoas, que vão além e se concentram nas redes e plataformas de streaming – espaços passíveis de críticas, segundo eles.
Em entrevista conduzida em agosto, o guitarrista Vicente Tessara e o baixista Téo Serson falam sobre a profissão da música independente, as preocupações com as plataformas, algoritmos e as inquietações da banda.
Para vocês, o que é ser uma banda independente?
Vicente Tassara: Hoje em dia é uma profissão, é o nosso trabalho. Nós tivemos uma grande sorte de conseguir que isso daqui que a gente faz não fosse só um hobby, nem uma paixão. É uma carreira e é uma sorte muito grande, porque acho que a maior parte das pessoas que correm atrás disso não conseguem viabilizar financeiramente a vida. Como profissão, envolve todas as exigências, investimento de tempo e de pensamento.
Téo Serson: Talvez – respondendo em dois níveis – num nível um pouco mais prático, eu diria que ser uma banda independente é em grande medida um desafio, no sentido que o Vicente falou, de conseguir se profissionalizar, conseguir fazer ser algo possível de ser, de fato, uma profissão. Ao mesmo tempo que se mantém naquilo que é fazer a música independente.
Estamos felizes com a forma como negociamos isso. Quero dizer, o quanto a gente também se colocou em certos espaços e cedeu de estar em outros para viabilizar a banda profissionalmente. Também precisamos colocar limites e dizer não, porque somos uma banda independente nesse sentido.
No nível mais amplo, e talvez um pouco mais filosófico, eu acho que ser uma banda independente tem a ver com dar-se seus próprios termos, sabe? Inventar sua própria viagem e, de algum modo, isso ser o norteador da coisa.
Dar o próprio sentido para sua prática. Acho que é isso que é ser independente. O famoso Do it by yourself, a partir daquilo que você acredita.
Vocês formaram a SCUEPDT em 2019, um ano antes da pandemia, que mais para frente foi um período delicado para a cena musical no geral. Como foi esse processo de se consolidar como banda durante a pandemia?
Vicente Tassara: Cara, eu acho que o fato de termos lançado o disco na pandemia, ainda no momento que era o auge da pandemia, abril de 2021, ao mesmo tempo que tava todo mundo preso em casa, o disco caiu num momento em que as pessoas tinham muito tempo livre para descobrir muito som.
Foi um dos momentos em que eu fui mais pesquisador. Eu ficava em casa à noite e botava alguma coisa no fone de ouvido.
Então, eu acho que a nossa banda, em particular, cresceu muito nesse momento do isolamento social, de realmente ter circulado na internet. O que foi muito bizarro pra gente, porque é uma banda que sempre foi de tocar ao vivo, de fazer shows. Acho que temos uma potência ao vivo que às vezes extrapola muito o que tem gravado e, por mais que a gente encampe muito essa briga, nós crescemos nas redes sociais e via as plataformas de streaming. Quando começamos a circular e fazer turnê, já tínhamos um público graças a isso. Teve o fato de que a gente se juntou a um selo, o RISCO, mas, também, as playlists e os editoriais do Spotify acabaram fazendo a gente circular de outro jeito. Ao mesmo tempo, é claro, que isso não se resume só a isso. Acho que para as músicas circularem, as pessoas têm que se identificar com elas.
Acho que nós somos de uma geração de artistas que se viabilizou pelas plataformas de streaming. Mas aí a gente encampa toda essa briga de não se reduzir a isso. É uma militância da banda de tentar sempre fazer as turnês e fazer as coisas ao vivo, mas isso aconteceu depois de a gente já ter alguma projeção.
Começamos a fazer turnê fora de São Paulo em 2022. Já tínhamos lançado o primeiro disco e começamos a usar os dados que estão nas plataformas para ver quais são as cidades que a gente consegue tocar e quais que não temos público.
Entendo que foi um momento de certa aceitação do Spotify, que estávamos começando e que ele começou a se tornar hegemônico. Nosso primeiro single, Idas e Vindas do Amor, circulou muito por causa do Spotify.
Teve um dia que por alguma razão o algoritmo falou: “Ah, essa música vai ser ouvida por um monte de gente”, meio porque o algoritmo decide e aí de repente você tem um público a partir dessa coisa que foi determinada sem você saber. Um algoritmo totalmente obtuso, incompreensível, que de repente escolhe que você pode ser ouvido por um monte de gente.
Vocês já tentaram entender como o algoritmo funciona para as músicas de vocês?
Vicente Tassara: Eu acho que existem alguns truísmos que a gente acha que são herdados um pouco da lógica antiga. A gente acha que músicas com determinado tamanho, as músicas pop, funcionam. Vivemos nessa negociação que fazemos música pop, a canção, então queremos que as coisas sejam curtas; mas a gente também tem a vontade de se passar um pouquinho.
Eu acho que não tem a ver, exatamente, com tentar entender a mecânica específica do Spotify e mais pensar numa certa lógica antiga, como não querer que os discos ultrapassem 40 minutos. E isso acho que é uma coisa que a gente realmente busca fazer, e é uma negociação entre a banda: se queremos respeitar essa lógica ou se a gente quer chutar o pau da barraca.
Mas eu acho que não tem como entender esse algoritmo ao fundo. A gente não sabe decifrar ele porque ele não é transparente, mas ainda assim entendemos que existem alguns truísmos, algumas verdades antigas da indústria musical que ajudam a gente a se orientar para ainda conseguir circular nessa lógica. Não é como se a gente rejeitasse essas limitações, participamos delas.
Téo Serson: Eu acho que isso que o Vi falou tem muita relação com o formato canção e com o formato disco, que no fundo a gente segue. Tem a ver, justamente, com essa nossa paixão pelo pop que seja comunicativo, que seja gostoso de ouvir. O negócio de uma música de 3 minutos ou de um disco de 30 minutos é que, pô, você para pra ouvir e é gostoso, não precisa parar por duas horas.
Mas é doido, porque a gente se colocou no mundo e começou a se profissionalizar justamente nesse momento inicial de consolidação do Spotify, dos streamings. Com uma mistura de sorte, de circunstâncias específicas – do isolamento, das pessoas estarem num momento emocionalmente muito intenso.
Vemos o que significa esse modelo durante o tempo, que é uma coisa absolutamente insustentável para uma banda independente viabilizar enquanto profissão, de pagar as contas. É uma inquietação que é difícil de articular em possibilidades concretas.
Não é só porque a gente, digamos assim, conseguiu se consolidar, estando numa posição menos vulnerabilizada, mas eu diria principalmente porque, na prática, com o passar dos anos, se mostrou muito insustentável.
Vocês têm inquietações em relação ao modelo de negócio dessas plataformas ou da questão da produção e criatividade?
Téo Serson: Do formato streaming de uma maneira geral, em todos os sentidos, tudo que implica na remuneração de artistas.
Vicente Tassara: Falando por mim, eu cresci com o Spotify como uma coisa que foi fantástica. Porque eu comecei a ouvir música através de pirataria, e foi assim que eu fiz até, sei lá, 2015. Aí eu descobri que tinha esse lugar que tinha literalmente todas as músicas do mundo, muito fácil de ouvir. Tenho uma memória até de quando o João Gilberto entrou no Spotify, com o “Álbum branco”. Finalmente eu consegui ouvir o álbum que eu nunca tinha conseguido achar fácil.
As coisas mudaram. Nos últimos anos tem várias críticas que vão se tornando mais difíceis de aguentar. Tanto o algoritmo e a necessidade de circular, quanto o uso da inteligência artificial. São problemas que a gente tem que conviver se vamos circular por lá.
Existe um incentivo financeiro da empresa que tem poder curatorial de colocar certos artistas em relação a outros. Então você não tem como competir a partir do momento que esse módulo se torna hegemônico e você precisa participar disso.
E os ouvintes aceitaram funcionar desse jeito, né? De ter esse poder curatorial cedido para essas várias empresas que determinam o que a gente ouve
Téo Serson: Tem um problema também muito grande no sentido de remuneração dos artistas, sabe? Todo o modo com que a gente ouve música é determinado por um certo modelo que segue os interesses dessa empresa. E o modo de remuneração de quem faz música – eu não vivi na época do CD, do vinil, mas acho que nunca foi uma coisa perfeita. Do jeito que tá, é insustentável.

Dá pra driblar esses modelos e achar alternativas ou no fundo a banda acaba dependendo deles?
Vicente Tassara: Tem muita gente que tenta, e eu acho que são esforços muito louváveis. Só que uma coisa que eu sempre tento bater na tecla é que, por mais que seja pouca remuneração, ela não é nula. Para nós que temos, sei lá, 50 mil ouvintes mensais no Spotify, a gente recebe alguma coisa. Não dá para viver disso, mas também não dá para rejeitar isso.
A gente quer crescer, a gente quer que mais pessoas nos ouçam. Ainda preciso desse espaço para viabilizar a carreira da banda.
E aí eu fico pensando: que tipo de militância é possível contra isso, sabe? E é meio frustrante, porque o seu trabalho tá sendo extraído e você não tem o que fazer, porque é assim que você ganha o seu dinheiro.
Téo Serson: Eu concordo com o Vi no sentido de que eu acho que eu responderia a sua pergunta um pouco as duas coisas. Quer dizer, um pouco acho que a gente é refém e daí depende, claro, das escolhas profissionais de cada um, o quanto cada um escolhe negociar. Mas eu acho que dentro da forma como a gente se coloca no mundo, a gente pensa bastante sobre isso e tem uma certa coerência nos nossos porquês de se posicionar.
Queremos nos profissionalizar num nível que dependemos, sim, dessas plataformas. Ao mesmo tempo, o negócio é também tentar. E essas tentativas são – seja dos ouvintes, seja dos artistas – priorizar o ao vivo, pautar nossa existência no mundo muito mais no presencial do que no digital. Essas pequenas estratégias vão tecendo alguma coisa.
O ideal seria, digamos assim, todo mundo sair do Spotify amanhã e começar a pensar ativamente, colocando todos os esforços nisso. Dado que isso não é a realidade, acho que é um pouco um jogo duplo: tá bom, a gente depende disso para sobreviver enquanto trabalhadores da música, mas ao mesmo tempo a gente vai de todas as maneiras possíveis fazer alguma resistência digital. Não exatamente das grandes plataformas, mas também das redes sociais.
Todo tipo de iniciativa, cada um com as suas capacidades, puxando mais pro presencial, ressignificando o digital, indo para outros aspectos do digital, indo para as mídias físicas. Eu acho que tudo é louvável e de algum modo a gente vai ter que sair dessa situação em um momento ou em outro, tipo assim, está insustentável.
Vicente Tassara: Continuando nessa onda, uma coisa que eu queria falar é que a gente tem vários esforços de pessoas tentando achar alternativas, por exemplo, a mídia física. Nós também fazemos isso, já lançamos dois vinis, dois CDs e dois discos. É super legal porque é um objeto artístico feito com todo esmero, um objeto físico que está associado à banda, que eu acho que é um jeito legal de armazenar.
Eu sou um grande fã do digital. Acho que ele é uma grande ferramenta de democratização no fundo. Sem ele não seria tão fácil produzir discos, não seria tão fácil ouvir discos como é fácil hoje em dia. Quando a gente fica comprando essa briga de “vamos fazer só mídia física” é uma tristeza, porque o digital é muito legal e de menor impacto ambiental também.
Eu prefiro encampar as brigas pela circulação do áudio digital, assim, pela pirataria, pelo Bandcamp. Sem essas ferramentas ainda seria muito mais restrito a capacidade de produzir e circular música. Isso é uma coisa que mudou muito nos últimos 20, 30 anos com a internet. Uma banda como a nossa, independente, seria muito mais difícil de circular 30 anos atrás.
Bandcamp é uma loja de discos online e comunidade musical. Na plataforma, os ouvintes conseguem descobrir novas músicas, se conectar e apoiar diretamente os artistas, de forma a fortalecer o vínculo direto entre artistas e fãs.
O áudio digital é uma p*** revolução incrível, ele possibilita um monte de coisa fantástica e a gente não pode ficar nessa briga de falar: “Não, f***-se, vamos se ater ao analógico, vamos se ater à mídia física, vamos se ater ao vivo.” A gente não pode sacrificar essa ferramenta incrível.
Téo Serson: Até porque não é sustentável enquanto estratégia de consumo de massa, de como o mundo consome música. Enquanto a ressignificação do digital talvez seja uma estratégia. Eu achei lindo o que o Vi falou, maravilhoso; só adicionaria um parênteses, ainda no sentido de que de algum modo essas mídias físicas também têm um papel importante na nossa profissionalização.
É curioso que, no fundo, ser uma banda independente, na prática é estar refém um pouco de tudo. Você precisa de um pouco de mídia física, um pouco de Spotify, um pouco de, enfim, do que der para fazer.
